quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ana e eu - Solidão.

Victor Marques.


Uma semana longe de Ana, nada mal. Meus cigarros duravam mais, a cerveja na geladeira parecia não acabar nunca, sempre sobrava comida para o dia seguinte, não precisava me preocupar com a louça na pia e nem com a roupa suja espalhada pelo chão do quarto, os cinzeiros voltavam a transbordar e eu nunca mais lavei a cabeça com sabonete íntimo.
Em compensação, me flagrei abaixando a tampa da privada depois que usava, fazendo o dobro de café, nos dias que saía mais cedo, pensava em bilhetes para deixar na mesa para que ela lesse, mas ela não existia mais.
As semanas foram passando, se tornaram meses, e eu ainda pensava nela. Nesse tempo, consegui marcar um encontro com a minha aluna particular que queria prestar física. Era muito gostosa, se chamava Valentina. Um dia me convidou para passar a noite em sua casa, “estudando”, era bem inteligente, apesar de sua cultura ser nula. Foi muito gentil, alugou alguns filmes, comprou quatro garrafas de cerveja importada, preparou uma boa janta e se vestiu de uma maneira que nem o mais veado dos homens negaria sexo.
Começamos a assistir um filme péssimo. Eu ainda pensava em Ana, mas resolvi atacar Valentina para não prestar atenção ao filme. Os créditos começaram a subir quando trocamos a sala pelo quarto. Ela já havia pensado em tudo, velas espalhadas, pétalas de rosa na cama, incensos e todos os outros apetrechos imaginável que faziam de tudo aquilo uma foda muito cafona.
Prosseguimos com tudo aquilo, o que mais parecia um favor, fazia sexo pensando em Ana, tinha de me controlar para não fazer confusão com os nomes. Não foi de todo o mal, talvez até melhor do que estava habituado, mas não queria aquilo.
Quando acabamos, me virei para alcançar um cigarro no bolso da calça, quando acendi ela disse:
-Se quiser fumar é lá fora! –Num tom de reprovação.
-Dá um tempo, acabamos de trepar, me deixe um cigarro aqui.
-Então quer dizer que estávamos trepando?
-Bom, rezando é que não estávamos.
-É assim que você chama, trepar? Então quer dizer que nos rebaixamos a animais?
-Se pensarmos em sexo com algo instintivo, sim, nos rebaixamos a animais.
-Some daqui, cachorro.
-Tudo bem, não precisa ficar irritada.
Coloquei minha roupa e sai o mais rápido possível. Na rua pensei “E pensar que tudo isso foi culpa dela, se deixasse eu fumar na cama, nada disso aconteceria.” Já era tarde, e eu estava no centro da cidade, caminhei apressadamente até o metrô, já estava fechado. Provavelmente não voltaria de ônibus para casa também. Abri a carteira, tinha um dinheiro considerável das aulas que Valentina tinha pagado.
Nessas horas a solução é escolher um bar e ficar lá até o metrô voltar a funcionar. Sendo esse o caso, Por que não fazer uma visita à Ana? Ela deveria estar saindo do trabalho agora. Talvez me arrumasse bebidas mais baratas.
Caminhei até o bar e olhei pela janela, lá estava ela. Servia uma mesa de homens engravatados acompanhados de meninas trinta anos mais novas. Não me viu. Cheguei ao estacionamento e comecei a conversar com o manobrista.
-E ai cara, como vai?
-Bem, o senhor está de carro?
-Não, queria perguntar uma coisa para você.
-Pois então diga.
-Tem a chave do carro de Ana aí?
-Tenho sim.
-Dou dez paus pra você abrir o carro dela pra mim.
-Não posso...
-Tudo bem, vinte.
-Fechado!
Fomos até o carro dela, ele abriu e logo me cobrou os vinte reais. Entreguei para ele, só o cheiro dela que estava impregnado no carro já valia cada centavo, resolvi deixar um bilhete para ela, já que não teria coragem de entrar lá.
“Ana, sinto sua falta, quando faço sexo, só consigo pensar em você. Victor.”
Saí de lá o mais rápido possível e encostei num bar que ficava do outro lado da rua, só para vê-la sair do trabalho. Fiquei lá cerca de quatro horas bebendo ininterruptamente, ansioso. De repente, peguei no sono ali mesmo, o que foi o suficiente para ela sair do trabalho sem que a pudesse ver.
Voltei ao manobrista.
-Cara, que horas são?
-Cinco e meia.
-Você sabe quando é a folga de Ana?
-Hoje.
-Obrigado.
Saí de lá e fui correndo até a estação de metrô. Dormi no metrô, fui e voltei várias vezes para o mesmo lugar. Um segurança me acordou, já era a terceira vez que me via voltar para a estação em que ele trabalhava. Fui caminhando até minha casa. Quando cheguei encontrei algumas guimbas pisadas ao lado da porta, pensei nela.
Quando entrei, havia um papel que haviam passado por debaixo da porta.
“Você é um grande filho da puta, também sinto sua falta, mas não vou voltar. Ana”.
Aquilo me deixou revoltado, mas a mancha de cerveja na parede me fazia lembrar que eu realmente era um grande filho da puta.
Passei o domingo no quarto, sem pensar em nada, nem em mim, nem em Ana. Quando estava quase dormindo, a campainha toca, resolvo não atender, provavelmente era algum vendedor de bíblia ou algum testemunha de Jeová.
Seja lá quem fosse, insistiu muito para que eu atendesse a porta. Mas não tive coragem de me levantar. A campainha foi substituída por um grito.
-Definitivamente você é um grande filho da puta!
Levantei correndo e fui até a porta. Quando abri, um carro saía cantando pneus, era o carro de Ana, eu sentei na calçada e observei-a partir. Não despregava meus olhos da fumaça que saía do escapamento. É, ela não voltaria mesmo, se eu tinha alguma chance, ela acabou de partir cantando pneus.
Ouço um barulho ensurdecedor na esquina de casa, entro. A desgraça dos outros pouco me importa. Procuro um cigarro e só encontro maços vazios, procuro no meio da roupa suja uma camiseta apresentável para ir até a padaria.
No caminho vejo um carro abraçado ao poste. Sim, o carro de Ana. Pergunto ao dono da padaria o que aconteceu.
“Uma maluca saiu correndo e arrebentou o carro no poste, saiu voando pelo pára-brisa, uma maluca a menos no trânsito e você, quer o que?”.
-Um camel.


3 comentários:

  1. Muito foda. Gostei bastante dos 3 contos da Ana.

    []s

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  2. É Victor a vida não é nada fácil. Mas se torna ainda mais dificil se ficarmos chorando, então sou a favor de fazer o que vc faz: levar a vida mais leve, menos a sério, levando as relações e os sentimentos de forma descomplicada e nada perfeita, pois quem disse que alguém é perfeito?

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  3. Sem palavras...muito bom mesmo...

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